
Jean-Luc Parodi é director de investigação cientifica na Fundação Nacional de Ciências Políticas, em Paris. Deu uma entrevista ao
Público onde faz interessantes declarações a propósito do debate que decorre em França sobre a chamada "
Constituição" Europeia com vista a referendo que se realizará no próximo dia 29 de Maio.
Jean-Luc Parodi não é própriamente um adepto do "não", mas é um francês atento ao que se tem vindo a desenrolar em França.
Considera que "
Temos o primeiro-ministro, Jean-Pierre Raffarin, claramente minoritário. Jacques Chirac é ambíguo: é a política dele que os franceses sancionam ao criticarem Raffarin mas, ao mesmo tempo, há a gratidão pela sua posição à guerra no Iraque que continua a jogar a seu favor. Penso porém que no debate eleitoral o que conta cada vez mais não é a imagem do protector na guerra do Iraque, mas sim a apreciação da sua política".
Parodi considera que em França, o referendo sobre o "
Tratado Constitucional Europeu" será uma oportunidade para as pessoas reprovarem a política do governo de direita e do Presidente de direita. Considera mesmo que "
Há, numa parte da opinião pública, uma necessidade de sonhar com uma sociedade mais justa. Foi isso que os partidários do "não" perceberam muito bem e exploram, dizendo que a Constituição impede uma melhoria social". Parodi acrescenta que "A Europa é o que está em jogo, mas há um consenso mole pela construção europeia e uma perplexidade mal-humorada sobre um certo número de elementos ligados à Europa. Houve a questão da Turquia, que teve um papel desvastador e joga ainda a favor do "não" numa parte do eleitorado de direita. Há as deslocalizações, directamente ligadas ao medo do desemprego (a 10 por cento). Na entrevista a Chirac, os jovens falaram muito disso, um deles até disse ao Presidente: "Não devemos ver a mesma televisão, toda a gente fala nas deslocalizações e o senhor diz-nos que não". É portanto uma Europa retraduzida nos termos das angústias dos franceses".
O que se passa em França, com a subida do "
não" não é uma ameaça para a construção europeia como fazem coro, em Portugal, todos aqueles que têm vindo a alimentar o discurso único e totalitário sobre a Europa. Uma (previsível) vitória do "não" em França, mas também possível na Holanda ou até na Dinamarca, é uma oportunidade para se
refundar a Europa com a participação democrática dos cidadãos europeus.
A Europa que nos têm imposto e que está traduzida numa "
Constituição" redigida por uma comissão
não eleita por ninguém, é a Europa que tem estado de costas voltas para os povos europeus, é a Europa da indefinição, é uma Europa que progressivamente ignora as preocupações sociais. A chamada "
Constituição" acaba por ser uma espécie de cartilha programática daqueles que querem perpetuar um modelo liberal - capitalista sem possibilidade de revisão num período de pelo menos ... 50 anos!
É também uma incrível desonestidade intelectual, apresentar o movimento pelo "não" , como uma espécie de "frente" entre esquerdistas e a extrema-direita. Não há
um movimento pelo "não", nem, muito menos, uma frente!
A ideia de uma
Europa Unida, Democrática, Federal e Socialista surgiu a seguir ao final da 2ª guerra mundial e foi lançada pelo movimento socialista europeu. É esse projecto de Europa que tem de ser refundado, através de um processo que ganhe os movimentos sociais, de cidadãos e democráticos. É um projecto de Europa que não tem nada a ver com a restauração de nacionalismos que significaram e poderão significar guerra ou até continuação da incapacidade política para haver uma resposta europeia contra qualquer aventura belicista.
Pela nossa parte, consideramos muito positivo que o debate em torno do "sim" ou "não" à "Constituição" leve também as esquerdas a repensarem que Europa querem. Há nas diversas esquerdas
- posições anti-democráticas: como são aquelas que pretendem a todo o custo evitar qualquer debate, como é a posição que tem vindo a ser adoptada pela direcção do nosso PS;
- posições nacionalistas: como é a posição de sectores do PCP ;
- posições de nem carne nem peixe: como é a posição daqueles que pensam que deixar tudo como está com alguns remendos sociais, seria a "solução".
O debate só faz bem, para além de ser mobilizador.
TRIBUNA SOCIALISTA - Democracia & Socialismo é claramente pelo
NÃO ao actual "
Tratado Constitucional Europeu" (TCE). Queremos uma Europa Democrática, Federal e Social.
Queremos uma Europa com instituições eleitas democráticamente e onde não vigore a ditadura do "unanimismo" como é imposto pelo chamado "TCE".
Queremos uma Europa com uma Constituição que resulte de uma Constituinte eleita pelos europeus e com a missão de a redigir.
Queremos uma Europa onde o liberalismo não seja perpetuado, mas onde seja possível, com a participação democrática e a auto-iniciativa dos trabalhadores, a construção de outras estruturas e dinâmicas económicas de orientação socialista.
Somos socialistas em Portugal e na Europa!