tribuna socialista

quinta-feira, abril 24, 2008

25 DE ABRIL: 34 ANOS DEPOIS ... FAZ FALTA UMA REVOLUÇÃO!

Há 34 anos, em 25 de Abril de 1974 e até ao 1º de Maio, começou uma semana que abriu um processo transformador que mudou a vida deste País.

Nomeadamente do país concreto … o país das freguesias e dos concelhos, o país das aldeias e das vilas. Um enorme movimento humano pegou em mãos a tarefa de construir ruas, construir pontes, construir habitações, construir espaços de vivência e de solidariedade … surgia o Poder Local, o poder do povo onde ele reside e onde trabalha.

Esse Poder Local, em 2008, já não existe! Porque voltaram os tempos em que o poder do dinheiro se sobrepôs ao poder da iniciativa das pessoas. Hoje, nas freguesias, muito pouco é deixado fazer por parte dos novos poderes macrocéfalos e burocratas.

Há 34 anos, em 25 de Abril de 1974, a insurreição de jovens militares deu origem a um enorme movimento humano e social de profunda transformação das vidas e da sociedade. Um movimento cheio de contradições, cheio de erros, mas sempre impulsionado por uma vontade enorme de mudança e de anseio por uma sociedade onde a justiça, a liberdade e a igualdade resultasse da construção popular e não de decretos.

O 25 de Abril de 1974 foi, de facto, o início de uma revolução. Uma revolução porque a liberdade, a democracia e a justiça social nunca poderiam resultar de uma qualquer evolução de um regime autoritário, caduco, corrupto e opressor.

Divulgue-se a verdade às novas gerações: as pessoas, um povo unido, quiseram, com as suas mãos mudar e, por uns tempos, conseguiram! Conseguiram com o seu esforço, com a sua vontade, com o seu querer. E isso é possível, mesmo que hoje se dê a entender que isso de mudar é coisa que parece ser competência dos iluminados pelo poder do dinheiro!

O 25 de Abril, a Revolução de Abril, não precisa de comemorações oficiais, nem da pompa encenada pelos profissionais da política. Em 2008, comemorar o 25 de Abril, exige capacidade para se propor mudança política, mudança social, mudança económica e mudança cultural. Impõe coragem para se quebrar com rotinas instituídas pelo Poder, impõe clareza para se mobilizar a vontade popular.

As verdadeiras comemorações do 25 de Abril, em 2008, começaram e aconteceram quando os professores redescobriram a importância da força colectiva e disseram-no nas ruas. As verdadeiras comemorações, em 2008, aconteceram também quando, espontânea e localmente, as pessoas juntaram-se para exigirem o direito à saúde.

São acções populares como estas que podem ter um efeito pedagógico e motivador sobre as novas gerações, dando-lhes a necessária confiança para perceberem que para mudar alguma coisa ou são eles a fazerem-no ou então nada acontecerá!

34 anos depois de uma onda humana que impôs as liberdades, a democracia e tentou um modelo económico e social que gerasse justiça social, estamos novamente numa espécie de grau zero em relação a isso. Hoje em dia, falasse de democracia, de liberdade e de justiça social como algo onde a formalidade parece que atira tudo isso para o reino da utopia.

No 25 de Abril, a política deixou de ser coisa para políticos profissionais. A política era a intervenção diária e concreta das pessoas. O exercício da política confundia-se permanentemente com os movimentos sociais. Sim, para alguns era um clima insuportável. Alguns não se cansaram de berrar contra a bagunça. Mas, hoje o que é que temos?

Será que o espectáculo de campanhas eleitorais onde se debitam promessas que nunca serão cumpridas … não é também uma bagunça?

Será que a existência de órgãos da democracia representativa que vivem acima das pessoas e sem qualquer ligação permanente à sua vontade e ao seu sentir … não é também uma bagunça?
Será que a generalização da promiscuidade entre os negócios escuros do futebol e figuras públicas sem solução à vista … não é também uma bagunça?

Será que o branqueamento por parte do Senhor Presidente da Republica de uma situação de autoritarismo anti-democrático e de saque ao contribuinte a nível nacional no arquipélago da Madeira, não é também uma bagunça?

E o mais grave é que as pessoas, as cidadãs e os cidadãos, só podem assistir mediaticamente a tudo isto.

Não … o 25 de Abril não tem nada a ver com estes cenários!

Em 2008, 34 anos depois de Abril, esta espécie de democracia que dizem que temos é uma reprodução do que se passa em muitas empresas: medo, poder dos poderosos, proibição da iniciativa pessoal e colectiva, leis à medida …

34 anos depois de Abril, o exemplo das mulheres, dos homens, dos jovens e dos trabalhadores, dos militares de Abril que ousaram mudar um País, é hoje, algo que só é recordado no plano formal. Porque o que era mesmo necessário era que esse exemplo tivesse, aqui e agora, algo de concreto adaptado aos nossos dias.

Há 34 anos, a força de um movimento social de transformação:

· criou condições para a redacção de uma Constituição democrática elegendo uma Constituinte. Hoje o governo fala em 25 de Abril, mas torna-o em mera formalidade quando, na Europa não se bate por uma Constituinte europeia que resulte do voto livre dos povos, preferindo ignorar a promessa de referendo de um texto que não foi sufragado pelo voto dos europeus;
· criou condições para o fim de uma guerra injusta e anacrónica. Hoje os governos, como o português, à boa maneira orwelliana, enchem a boca com “paz”, mas alimentam cenários de guerra no plano internacional;
· criou condições para que a intervenção das pessoas fosse o motor e o oxigénio da democracia. Por todo o lado, surgiu auto-organização, auto-iniciativa, vontade colectiva. Hoje a democracia vive asfixiada por mil e um formalismos e restrições resultantes do crescente controlo que o poder económico e financeiro tem sobre o poder político. A democracia oferecida pelo poder acaba por ser uma máscara que encobre quem está muito pouco interessado no desenvolvimento da democracia.
· criou condições para que o desenvolvimento e o progresso fosse medido pela felicidade das pessoas normais. Hoje esse desenvolvimento e esse progresso já só tem a ver com os lucros astronómicos das grandes empresas.

É preciso devolver a democracia às pessoas, é preciso fortalecer as liberdades por todo o lado contra o medo, é precisa coragem, muita coragem para construirmos, com as nossas mãos e a nossa vontade, uma outra sociedade de igualdade, de fraternidade, de solidariedade …

João Pedro Freire



Sem comentários: